Pensamentos Insanos I
A vida me afaga o corpo, me espanta as impressões fugidias, suspende-me por sobre os céus luminosos. Meus dias passam numa velocidade lenta e gradativa de forças que se multiplicam. As luzes dos postes cintilam num asfalto cinza e negro, como se vislumbrassem as convulsivas pessoas que os transpassam. Olhos me vêem de esguelha, por entre as sombras. Negros perfumes exalam uma espuma escura. Vejo por entre as arvores, jovens que sorriem abraçados, encantados, deslumbrados. Por entre as vigas de cimento, estão erguidas majestosas casas, que por entre as janelas se vêem as nebulosas luzes, preludem um anoitecer calmo e sereno.
Tal mente insana viaja por sobre as ruas, e os carros em outro universo não os observa. Como se vagassem num deserto, amontoado de pessoas estranhas, perdidas em si mesmas. Por vezes reluz um sol forte, vívido, que por sobre as frágeis lentes de nossos olhos, parece um gigantesco monstro luminoso e incandescente. Por sobre os montes e as colinas, as faixas de luzes brincam de formas, e por sobre as arvores, pousam quietas. Insípidos olhares atravessam as calçadas e não se deixam embalar por luzes tão cotidianas. Será que eles estão mesmo vivos? Será que o sangue corre pelas suas veias, e nos seus tecidos, as células se reproduzem com força e explosão? Será que por sobre suas peles e por sobre os perfumes luxuosos, seus nervos sentem a vida externa? Prazer, veneno, loucura, tentação. Mal fazem um passo, uma mão dada, uma ajuda, já se cansam, se esvaem de seus esforços e toda vitalidade se resume em gestos automáticos e mecânicos. A vida se cimentou, o céu as vezes parece um grande lençol de poeira e destroços. Estranho olhar que me atravessa os transeuntes. Estranho céu que por sobre minha cabeça me observa ao longe.
Perto de mim, só sinto distancias. Pensamentos esparsos me atravessam, e invadem um liquido viscoso, meio seco, que por sobre as rodas, viraria graxa, mas no jeito interno de ser, resiste, torna-se uma umidade crescente, vagarosa. Por sobre os telhados das casas, uma chuva vagarosamente caminha por entre os caminhos tortuosos das telhas. Batem, estalam, aprumam-se, descansam num leve estalar de tempo, e enfim, escorregam, livres, até não encontrarem resistência, chegam ao chão sujo e lamacento para, enfim, aguardarem suas irmãs gotas que logo chegam. Pérolas, vísceras, coros em frenesi, sangue pulsando, líquidos em ebulição, bolhas de ar quente estouram por sobre as superfícies lisas. Estranho movimento do mundo, estranha dinâmica tortuosa.
Outras imagens vêm e vão em minha cabeça. Tal qual uma maré que retrai e avança, ondas pesadas, sedimentos grossos e pesados, levados de um lado á outro, cambaleante, num vai e vem enojado.
As formas das arvores, da relva fresca, do gramado cortado, se me apresentam foscos, sem foco, sem ordem, sem nitidez. A natureza, em sua ordenação estranha, se me aparece nebulosa, disforme, desnorteada, desenfreada. Néctar fresco de suco puro, agora, flácidas mãos gordas os solvem por sobre os lábios carnudos.
O Menino agora caminha sossegado, observa as pessoas, olhos cabisbaixos, cansado, penetrante. A pele jovem, já tortuosa, aspira a almejantes cansaços vindouros. Seus gestos desencontrados, desengonçados apresentam um ritmo secreto e velado. Suas pernas avançam com rapidez, embora não aparentem tal força. Seu porte alto, avista possíveis encontros. Seus pelos balanceiam ao sabor do vento do mar. Ele agora encontra seus amigos. Um sorriso amargo e tímido pode-se vislumbrar em seu rosto pequeno. Sua expressão se altera numa forma mais fresca, vívida. Os encontros sempre despertam prazeres. As conversas francas se entrelaçam num veludo firme e cheio de sentimento. As palavras saem com uma força gutural, com anseio de libertar-se das correntes internas, dos castos pensamentos. A vida, porém não se observa, ela se reinventa ao saber das ondas. Os olhos, ainda leitosos e tristonhos, arriscam se entregar ao sabor dos rostos que o contemplam. Beijam a carne fresca das vozes que ressoam. Nadam sobre as ondas que as conversas embalam. Avistam relances dispersos e vários. Pequeno prazer, pequena coisa delicada, frágil, inócua, pecúlio objeto verde.
Pobres palavras ainda não me vêem com sede nos olhos, com sangue a espumar por sobre a carne fresca. Ainda não alcanço o azul mar que me contempla. O que será a falta, ausência de todo dia? revolvem a terra fresca, e aflora-se apenas uma angustia insossa, seca. A vida ali não chegou, talvez nem chegue por ora. Medo. O que agora posso expressar? As palavras rolam e se aglutinam num papel fosco, como se a vida por ali não chegasse. As tintas tocam finamente a tessitura do papel, e ao se espalhar, vivenciam um prazer fóssil, se aconchegam por onde antes não havia nada. Mas a vida ali não chega. O papel não sente, não vibra. O frenesi parece que se desvanece na presença de significação. Palavras mortas se amontoam. Cadáveres. Os ossos rolam por sobre a montanha, um monte de destroços se amontoam, sem importância, sem atenção, negligente. A vida se esquece. A morte aparece, seu rosto fino e seco, seus olhos penetrantes, um escárnio sorriso esboça-se em seus lábios pequenos e delicados. Seu andar vagaroso anuncia vindouros futuros incertos, intempestivos.
As casas, o sol translúcido e opaco, queima nossas faces, rubra centelha divina que me persegue os olhos. O caminhar, as pessoas, os carros, tudo afaga minha miséria. Parecem mortos, apodrecido os seres que vagueiam apressadamente por entre as avenidas. Praças desocupadas, vislumbram, cintilam presenças mundanas e prisões domiciliares. Parece que vivemos nos prendendo, e libertar-se é chegar em sua sela, retirar seus sapatos apertados que esmigalham os pequenos dedos frágeis, despir-se de um tecido pesado e incomodo, presença insuportável, calor infernal. O leves prazeres, por ora esquecidos, ainda se amontoam nos lugares mais recônditos. Os outros se vendem por qualquer esmola, qualquer plácido encontro de corpos, se vê pessoas prostituindo-se, vendendo corpo, alma, e existência. Pacíficos, embriagados de flacidez estonteante. Eles agora nos vislumbram com olhos tenebrosos e sedosos. Estão presos num emaranhado de fios e ramos, estão imersos em tal nebuloso abismo, que não vêem as montanhas por detrás das colinas. Não vêem o mar por debaixo de suas pestanas. Não vêem o fluxo incessante de virtuosidade que atravessa nossos corações. Para eles a vida já está ganha, o pão já está comido, já se chegou a uma saciedade frígida e cálida. Tenebrosa assombração nos atravessa , e neles ela se amontoa, se aglutina, estão presos tal qual na lama, estariam sujos e fétidos se não fosse o doce perfume que por suas carnes moles se esvai. Olhamos ao longe, e vemos tais seres, se digladiando por sobre seus egos intumescidos, carne gorda que se roça uma por cima da outra, e forma aquele véu viscoso e engordurado. Aquele fedor de lavanda por sobre a carne limpa, anuncia a ironia de tais gordurosos seres. Estão podres limpando suas chagas putrefatas, cuspindo pus por sobre os outros, e mal percebem seus corpos esmorecendo. Estão aperreados com assuntos banais e triviais. Vida insossa. Vida putrefata. Esvai-se, morre, escorre ligeiramente por entre os dedos, e se perde no emaranhado.
Olhar insano, vida em movimento. Pedra sobre pedra. Tigela e comida na mesa, alimento divino que nos afaga. Nos protege de todas as intempéries da vida ordinária. Os sapatos sujos, calçam dedos frágeis, estranhos calos brotam, bolhas afloram na pele escamosa. Suas calças sujas, seus olhos brutos, olhares insossos. Medonhos. Bisonhos. Apontam para o chão, vagando em um serpentear de pensamento irritante, preocupado com as misérias, chagas que nos afoga. Andam nas ruas com o passo molengado.

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